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sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

Quantas opções de verificação da realidade você conhece?

A técnica da checagem de realidade para alcançar os sonhos lúcidos (SL) é uma
das mais conhecidas. Na versão clássica, uma pessoa apenas se pergunta a si mesma sistematicamente: "Estou sonhando?" até desenvolver o hábito que deverá se manifestar nos seus sonhos. entretanto, recentemente, um pesquisador da Inglaterra, Berenika Maciejewicz, dividiu esta técnica em três protocolos diferentes. 

Durante um experimento de 10 dias, 33 participantes (todas mulheres) foram divididas em três grupos. Instalaram um aplicativo nos seus telefones que enviava um sinal a cada duas horas, cinco vezes por dia. O som tinha que ser suave, discreto e curto (uma simples vibração, por exemplo), de forma a não irritar ou interferir com os estudos ou trabalho. Neste momento, os voluntários tinham que cumprir a tarefa dada a eles, enquanto perguntavam-se a si mesmo: "Isto é um sonho ou é a realidade?" e então continuar seu dia normalmente.

O primeiro grupo tinha a tarefa de checar seu reflexo no espelho. Em um sonho, a aparência de uma pessoa normalmente difere do forma que aparece na vida real. Os riscos deste método, como o autor nota, são que ver seu próprio reflexo pode assustar um sonhador e despertá-lo. Entretanto, a prática não confirma estas preocupações. 

A segunda tarefa foi baseada no fato de que as leis da física não funcionam nos sonhos. Por exemplo, você pode passar um objeto sólido através de outro. Assim sendo, uma vez que o sinal do telefone parou, os voluntários tinham que colocar suas palmas das mãos contra o muro e conferir se suas mãos podiam passar através da parede (na ausência de uma parede próxima, eles tinham que tentar empurrar um dedo através da sua outra mão).

A terceira tarefa era para os participantes examinarem suas mãos (ver se elas mudavam). Esta é uma técnica popular, mas visto que todos os participantes eram mulheres, a autora adicionou um detalhe feminino ao procedimento: prestar uma atenção especial ao polimento das unhas. Este grupo mostrou os melhores resultados, ambos em termos de consciência e rememorações dos sonhos. 

Qual tipo de checagem da realidade você prefere? 👀

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The article was published in October 2022 in the Journal of Neuroscience and Neuropharmacology.

Tradução: Guiherme Fauque

Texto original: How Many Reality Check Options Do You Know? – Phase Today

Visão Geral das Conquistas no Campo dos Sonhos Lúcidos

Aristóteles

Na literatura ocidental, as evidências de Sonhos Lúcidos (SL) datam da época de Aristóteles. Não faltam, também, menções do fenômeno no Oriente. No momento, estamos presenciando uma grande pesquisa de estudo deste fenômeno de diferentes ângulos. Berenika Maciejewicz, um pesquisador dos EUA, recentemente compilou um resumo das principais realizações científicas no campo dos SL. 

O autor revisou mais de 117 artigos, a maioria dos quais ela excluiu devido a falta de descrições de métodos de indução de SL, pequena cobertura, ou verificações empíricas insuficientes. Como resultado, a pesquisadora ficou com 26 publicações que ela sujeito a uma profunda análise. 

Como a autora observa, todos os cientistas aderem a uma definição similar de sonhos lúcidos. Existe uma opinião comum e consensual de que um sonhador lúcido está consciente do fato de que está dormindo. Quase em todos os artigos reconhecem a contribuição de Frederik Van Eeden, o psiquiatra holandês que lançou as descrições básicas dos SL. 

A pesquisa oferece vários meios para induzir sonhos lúcidos. Maciejewicz classifica estes métodos em três grupos principais: 

1. Técnicas Cognitivas (checagem de realidade, auto-sugestão, despertares noturnos com returno para a cama, et.) 

2. Estimulação Externa (máscaras que produzem sinais de luz, uma voz pré-gravada, estimulação tátil)

3. Ingestão de Drogas (participantes que ingeriram drogas reportaram SL, mas também vários efeitos colaterais, incluindo vômitos, náusea e insônia).

Embora alguns métodos pareçam muito promissores, a pesquisadora complementa que nenhum deles garante a indução de um SL. Entretanto, muitos deles são até muito efetivos, especialmente em combinação. 

Em conclusão, a autora aponta um dos mais importantes problemas no campo dos estudos dos SL: Não há uniformidade na metodologia de pesquisa. Se os cientistas aderissem a padrões em comum, seria possível obter dados mais conclusivos e paralelos. 

E você, quais técnicas de Sonhos Lúcidos prefere?

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Este artigo foi publicado em Outubro de 2022 na International Clinical Neuroscience Journal.

Tradução para o português: Guilherme Fauque

Texto extraído do site: Phase Today – The first phase news media: lucid dreams, sleep paralysis, OBE, etc.

Texto no origina: Overview of Achievements in the Field of Lucid Dreams – Phase Today

terça-feira, 29 de novembro de 2022

Dificuldades na Viagem Astral

 Prof. Guilherme Fauque


Robert Peterson, autor de livros sobre Experiências Fora do Corpo e criador do excelente blog chamado: The OBE Outlook on Life (http://obeoutlook.blogspot.com/), blog realizado deste 2012, criou uma excelente sequência de textos focados nas dificuldades encontradas pelas pessoas na realização das viagens astrais.

Robert Peterson
Peterson afirma que os problemas podem ser classificados em duas partes: Pré-EFC e pós-EFC.

Inicialmente, obviamente, inicia com os problemas pré-EFC, que são aqueles encontrados quando estamos tentando chegar as experiencias fora do corpo, mas ocorrem coisas como a diminuição das vibrações ou o coração a bater rapidamente.

Posteriormente, são tratados os problemas pós-EFCs, que são aqueles que ocorrem depois que você saiu do corpo, como ser puxado de volta ao corpo prematuramente ou ficar preso ao corpo físico e não conseguir se afastar.

Peterson começa, então, com um problema pré-EFC bastante comum. Você tenta sair do corpo, mas nada acontece. Esse é um problema recorrente nas reclamações que recebo via internet. Isso faz com que as pessoas se aborreçam e acabem desistindo de realizar as experiências ou até mesmo relegando-as a mero fruto da imaginação.

Peterson passa alguns passos para se resolver este problemas. Vejamos:

Use sua imaginação ativa

“Se nada acontecer, tente engajar sua imaginação ativa. Quando caímos no sono, nós perdemos o foco.
Nós meio que deixamos nossas mentes vagar até o controle nos escapar”, explica Peterson. Quando estamos tentando a projeção, precisamos nos aproximar do sono, entrar no Estado Hipnagógico, ou seja, naquele estado intermediário entre a vigília e o sono. Mas, se nada parece acontecer quando tentamos nos aproximar, esse é o momento para prestar atenção nos eventos internos.

Peterson cita a técnica ensinada por Robert Monroe, no seu primeiro livro, chamada Linhas de Força, como um exemplo para o foco nas experiências internas. Monroe utiliza duas linhas de energia paralelas do lado de sua cabeça, na altura dos olhos e ao lado das orelhas. Estas duas linhas se cruzam há mais ou menos um metro de distância dos seus olhos. Então, pela concentração, você se concentra neste ponto de convergência e vai estendendo-o para 2 metros, depois para 3 metros, então estas linhas, na altura de suas orelhas, se afastam até formar um ângulo de 90 graus. Então, fixe a atenção no ponto de convergência. Por fim, faça estas linhas subindo (e ainda mantendo o ângulo e distância) para o topo da cabeça. Se não tiver nenhum resultado, afaste mais o ponto de convergência.

Essa prática faz com que você consiga manter o foco internamente e chegar perto do sono concentrado.

Quando nada acontece, diz Peterson, significa que você ainda longe do limiar do sono. Procure assistir o momento do sono, procure estender a consciência o máximo possível.

Quando chegar muito próximo ao sono, naturalmente começará a alucinar: verá imagens o que é chamado de imagens hipnagógicas, ou seja, algumas imagens geométricas, alguns objetos. Também poderá ter alucinações auditivas, como pessoas sussurrando, entre outros sons. Não se assuste, isso é natural e acontece com todas as pessoas. Você começa a entrar no estado de sonho.

Não tenha medo de cair no sono.  Robert Peterson enfatiza que a preocupação pode manter a mente alerta de mais, fazendo com que você não chegue a hipnagogia. Assim, pode ficar insone. Assim, é preciso relaxar e deixar o sono vir ao mesmo tempo que, pela vontade, procura chegar consciente no estado hipnagógico. É normal adormecer muitas vezes até aprender a chegar neste estado.

Por fim, outra importante dica deixada por Peterson é a de não ter medo de se mexer. Muitas vezes a pessoa chega até o momento propício para a separação, mas não toma atitude nenhuma, esperando que a saída aconteça naturalmente. Embora muitos autores digam para se imaginar flutuando, Peterson diz que isso não funciona bem para ele. Então, ele prefere usar uma técnica mais ativa, como o “movimento fantasma”, descrito por Michael Raduga, onde há uma forte ênfase no movimento. Se realmente não tentar sair, provavelmente não acontecerá nada. Do contrário, a paralisia do corpo manterá ele imóvel e então ocorrerá o movimento do corpo astral para fora.

No próximo artigo, iremos abordar a questão tão comum de cair no sono enquanto tenta as práticas. Veremos o que Peterson nos diz referente sobre isso.

 

 

 

domingo, 14 de novembro de 2021

A Natureza do Conflito

 

A NATUREZA DO CONFLITO


Imaginem a cena: Um monge budista, em uma cidade interiorana da China pré-moderna, caminhando pela cidade afim de adquirir suprimentos para o Templo, topa com um grupo de desocupados que decide fazer bullying com o jovem monge. O monge, com sua expressão de paz e tranquilidade, mãos sobrepostas em gasho rei, pouco se importa com os detratores até que, estes avançam o limite das palavras e tentam agredir o monge. Este, então, mostra-se um exímio lutador de Kung Fu, esquivando-se dos seus detratores que lançam golpes ao ar e com poucos movimentos, o monge derrota 4 ou 5 homens sem nem mesmo sujar seu manto laranja.

Neste momento me pergunto. Como um monge budista, defensor da filosofia Chan (ou Zen em japonês), uma pessoa que prega a paz, a harmonia entre os seres, pode ser um exímio lutador de artes marciais, as artes da guerra?

Sun Tzu, grande general chinês e um estrategista tão fenomenal que nunca foi derrotado em batalha, escreveu o famoso livro A Arte da Guerra, que é admirado por todos os estrategistas e artistas marciais do mundo. Como um taoísta, Sun Tzu foi um mestre dos paradoxos. A essência do Arte da Guerra pode ser aplicado a guerra, como a qualquer outro aspecto da vida. E isso nos leva, novamente, ao paradoxo do monge pacífico e mestre em Kung Fu.

O monge e os seus detratores mostram um aspecto comum da vida humana: o conflito. Heráclito de Éfeso, grande filósofo pré-socrático, afirmava que a vida é uma constante luta de opostos. Só conhecemos o bem, porque o comparamos ao mal. Só conhecemos o alto, ao compararmos com o baixo. Temos o velho e o novo, a água e o fogo, a paz e a guerra. Enfim, nesta luta de opostos reconhecemos o contínuo movimento do mundo e a própria dinâmica da vida. Curiosamente, aqui o Ocidente e Oriente se encontram na relação da teoria de Heráclito ao símbolo Taoista do Yin e Yang, onde temos o preto e o branco, mas ao mesmo tempo um pouco do preto no branco e do branco no preto. Os opostos que também se complementam.

Nesse paradoxo vemos que a vida é feita de conflitos e mesmo que busquemos a paz, sempre haverá momentos de conflito que, enfim, nos mostram que estamos vivos. Paz não é inação, mas a harmonia dos opostos. Afinal, os conflitos nunca deixam de existir em nossa vida diária, a cada passo que damos.

Durante um combate em artes marciais temos dois opostos, um conflito. Não só um conflito entre duas pessoas. Mas, um conflito entre a estagnação e a ação, entre o medo e a coragem. Muitos podem olhar de uma forma rasa como se o embate entre dois artistas marciais fosse apenas uma expressão da violência, um querendo derrotar o outro. Contudo, qualquer um com dois dígitos de QI sabe que existe muito mais em jogo. Existe estratégia, existe um grande trabalho de concentração, de domínio dos próprios medos, de desafio dos limites do seu corpo, da busca da paz após o extravasar de seus demônios internos. Findado o combate, ambos se cumprimentam respeitosamente, sabendo que deram o seu melhor e que precisam progredir em suas limitações.

No entanto, não termina aí... lembram do paradoxo? Pois ele continua. O artista marcial sabendo da sua superioridade em combate, não vê necessidade de atacar o mais fraco. Pois conhece suas habilidades. Esquiva-se do conflito, assim como o monge que falamos inicialmente vencendo sem precisar da violência. Como dizia Morihei Ueshiba “Resolver os problemas antes de eles tomarem forma é o caminho do guerreiro”.


Mas, como Sun Tzu na Arte da Guerra, essa estratégia pode ser levada para a vida. Basta vermos o combate como os conflitos da nossa própria vida. Precisamos foco, atenção plena, saber antever os golpes, saber esquivar e atacar na hora certa.

Desta feita, vemos que a atitude do monge do inicio do nosso texto continua sendo a paz, embora o conflito tenha sido inevitável. E quando o conflito é necessário, temos que ter estratégia, foco e paciência para vencê-lo e retomarmos o equilíbrio. Assim é o combate, assim é a vida.

Na primeira nobre verdade do Budismo está escrito: O mundo é sofrimento.  Portanto, é conflito. Nas outras três nobre verdades, Budha nos alerta que devemos reconhecer a causa do sofrimento, saber que podemos eliminar esse sofrimento e, por fim, buscar a estratégia que nos levará a cessação do sofrimento.

Por mais paradoxal que possa parecer, a arte marcial, uma “arte da guerra”, nos proporciona chegar a paz.

Paz Profunda!!

Prof. Guilherme Fauque

quarta-feira, 2 de junho de 2021

Sonhando acordado ou acordado enquanto sonha

 

Sonhando acordado ou acordado enquanto sonha

 

29 de Mais de 2021 – PHASE TODAY

Baland Jada, cientista das Universidades de Harvard e Cambridge, estuda o tópico da paralisia do sono. Em seu novo artigo publicado no jornal Big Think, o pesquisador abordou vários questionamentos referente ao fenômeno, do qual cerca de 20% das pessoas do planeta já experimentaram pelo menos uma vez.

A paralisia do sono ocorre com mais frequência quando estamos em estado de privação do sono, quando tiramos uma soneca durante o dia ou quando acordamos enquanto ainda estamos no período REM (movimento rápido do olhos). Junto com a incapacidade de se mexer (que por si só já é muito assustador), esta experiência é frequentemente acompanhada de alucinações. Algumas das alucinações mais comuns experimentadas por aqueles que passam pelo fenômeno inclui a impressão de estar olhando para si mesmo fora do seu próprio corpo, bem como a presença de criaturas assustadoras. Jalal, no entanto, explica que estes dois casos são atividades disruptivas de uma área específica do cérebro (a junção temporoparietal). Esta área é responsável por nos auxiliar a distinguir o “Eu” do “Outro”. Durante o sono REM, ela é desligada e nós podemos nos ver de uma perspectiva de terceira pessoa. Similar as desordens que ocorrem durante a paralisia do sono.

Se uma pessoa na paralisia do sono vê um fantasma, uma sombra assustadora ou um monstro, isto pode ser uma projeção do seu próprio corpo que pode ser tomado por engano como um ser separado. Esta hipótese ainda não foi provada. Mas, é consistente com as observações disponíveis.

Jalal tem investigado repetitivamente as características culturais da percepção da paralisia do sono em diferentes países. Por exemplo, na Dinamarca as pessoas consideram-na um fenômeno trivial ativado pelo cérebro, enquanto para os italianos, está associado com o mito de Pandafeche (um demônio que fica sobre o corpo). Para os egípcios, a paralisia do sono é causada por um gênio, um espírito que pode matar suas vítimas. Muitos egípcios realmente temem morrer durante uma experiência de paralisia do sono e passam três vezes mais frequentemente pela paralisia do sono do que os dinamarqueses.

O problema é que o medo aumenta a probabilidade da paralisia do sono, bem como a sua duração e leva a alucinações mais intensas. Jalal também afirma que em sua última pesquisa, que será publicada em breve, demonstra que a paralisia do sono, acompanhada por alucinações e crenças culturais, podem ser a causa real de sintomas de traumas de ansiedade.

Uma das formas de combater a paralisia do sono é entrando em um sonho lúcido (SL). Tanto a paralisia do sono, quanto o sonho lúcido, são chamados de estados de fase, um conceito que também inclui experiências fora do corpo. De acordo com Jalal, tanto as pessoas que sofrem com a paralisia do sono, tanto quanto os sonhadores lúdicos, encontram-se entre o estado REM e a vigília, mas o primeiro está sonhando acordado, enquanto o último está acordado enquanto sonha. O sonho lúcido pode dar a sensação de controle da situação e assim ser terapêutica.

Fonte: Dreaming While Awake or Awake While Dreaming – Phase Today

Tradução: Guilherme Fauque

domingo, 11 de abril de 2021

SERIA A REALIDADE UM SHOW DE TRUMAN?


O que você faria se descobrisse que sua vida inteira e tudo o que o rodeia não passassem de uma grande encenação? Que tudo o que você vivenciou até o momento não passasse de um grande teatro do qual você é o único que não está ciente da encenação? Pois esta era a situação de Truman Burbank no filme “O Show de Truman”.

O filme do diretor Peter Weir nos apresenta uma bela crítica à fragilidade do que chamamos de realidade, onde nossos sentidos podem ser enganados e nossos pensamentos manipulados de tal forma que não percebamos que estamos vivendo como autômatos numa vida de aparências e da qual acreditamos ser a única realidade.

Truman Burbank, interpretado pelo caricato Jim Carrey, é um pacato vendedor de seguros na bela SeaHaven, um verdadeiro paraíso terrestre situado em uma ilha, onde tudo desenrola-se de forma perfeita e harmônica. Ali Truman nasceu, cresceu e casou-se. Adquiriu uma bela casa, um bom carro e a única tragédia em sua vida era a morte de seu pai, durante uma tempestade enquanto pescavam, que foi a gênese de um trauma do mar que o impossibilitava de sair da ilha.

No entanto, logo descobrimos que esta aparente vida perfeita, na verdade, desdobra-se num grande cenário, onde tudo não passa de uma grande encenação para um reality show transmitido 24 horas por dia desde o nascimento de Truman e ele é o único que não sabe disso. Sua casa, seu trabalho, seu melhor amigo, seus pais e até sua esposa não passam de uma grande farsa transmitida ao vivo.

Logo no começo do filme vemos o diretor do reality show, Christof, dizer que na vida de Truman não há encenações, “deixas” ou roteiros, as emoções são todas reais. Afinal, conclui ele, “nem sempre é Shakespeare, mas é genuíno... é a vida dele”. E então nos perguntamos, será que uma vida de aparências pode ser dita como genuína?

Noutro momento o melhor amigo de Truman, também um ator, diz numa entrevista: “É tudo verdade. É tudo real. Nada aqui é inventado, nada do que virem neste filme é falso. É apenas controlado”. E mais uma vez nos perguntamos: Se tudo é controlado e manipulado, sendo que Truman está sendo totalmente ludibriado desde o seu nascimento, podemos chamar a sua vida de real?

Analogamente lembramos-nos da Alegoria da Caverna, relatada no Livro VII da República de Platão, onde três prisioneiros são mantidos acorrentados, com suas cabeças voltadas para o fundo de uma caverna, desde que nasceram, em completa alienação quanto a vida externa. Tudo o que conhecem é o que lhes é apresentado perante sombras refletidas na parede, provindas de uma fogueira entremeio a eles e a saída da caverna. Esta é a única realidade que conhecem; aquela com a qual conviveram desde o seu nascimento.

Não obstante, um dos presos é liberto e levado à saída da caverna. Enfrentando um doloroso processo de adaptação e descoberta, ele compreende que havia vivido até aquele momento num mundo de sombras. Mas agora desvelava-se diante de si um mundo de cores, luz e formas definidas. Deslumbrado com a realidade que despontava a sua frente, deu-se conta que tudo o que até então acreditava ser real era apenas parcialmente real.

Desta feita, fica claro que para Platão o real estava no mundo dos ideias. Para Truman, por outro lado, estava no exterior do cenário de SeaHaven. Analogamente, percebemos que enquanto estivéssemos na caverna ou em “SeaHaven”, estaríamos no âmbito daquilo que Platão chamava de “sombras”. Não há certezas, tudo é confuso e imperfeito quando visto de um nível mais “elevado”. Assim, ao buscarmos a verdade fora da caverna (ou do cenário), entraríamos, então, ao nível da episteme ou do “conhecimento”, onde poderíamos ver com mais clareza a realidade. Para Platão esta era a solução para encontrar o Bem Supremo, ou seja, a verdade e a liberdade. Já para Truman, no entanto, talvez seja só mais um nível de uma realidade de aparências, embora certamente seja um passo a mais em direção a verdade almejada.


É evidente que SeaHaven não deixava de ser um grande cativeiro para Truman, que na sua condição de ignorância e manipulação assemelhava-se aos prisioneiros da caverna de Platão, agrilhoados diante de uma parede. Truman, no entanto, numa atitude corajosa, buscou impavidamente descortinar a realidade, diferente, por exemplo, dos seus telespectadores, que ao findar o show, não mudaram sua condição mental e mostrando uma atitude mais alienada do que Truman em seu cenário, ou do que os prisioneiros da caverna de Platão, permaneceram presos à frente da televisão, simplesmente trocando o canal a procura de uma nova programação.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Morte e a Busca de Sentido para a Vida



Na história da filosofa, a morte é um tema par excelecia. Quiçá, asseguram alguns estudiosos, seja até mesmo a genetriz dos raciocínios filosóficos, visto que com a consciência da morte, sobrevêm grandes questões existenciais. Assim sendo, embora pareça um tanto paradoxal, a temática da morte nos faz refletir sobre o sentido da vida.

Realmente, não podemos negar que ela é como uma sombra oculta a cada passo que damos, guiando-nos em direção ao derradeiro desfecho. Sem exceções a morte leva reis e plebeus, ricos e pobres, religiosos e ateus. Aliás, não só nós, humanos, mas tudo o que é vivo, formando um ciclo inevitável de vida e morte.

Confirmando esta realidade, o escritor francês Leon Denis (1846-1927) asseverou-nos, na sua obra Além da Morte, que a transição da morte não se dá unicamente com o ser humano, mas que as próprias civilizações participam deste ciclo.

Nas palavras de Leon Denis:

Vi, deitados nos seus sudários de pedra ou de areia, as cidades famosas da Antiguidade, Cartago, com brancos promontórios, as cidades gregas da Sicília, o campo de Roma, com seus aquedutos trincados e túmulos abertos, as necrópoles que dormem seu sono de vinte séculos sob a cinza do Vesúvio. Vi os últimos vestígios das cidades antigas, outrora formigueiros humanos, hoje, ruínas desertas que o sol do Oriente calcina com suas ardentes carícias. (DENIS, p.11, 2004)

Seguindo na esteira desta realidade surgem, então, profundos focos de questionamentos existenciais que levam, como nos dizia Schopenhauer, a angustiadas buscas de significação.

De qualquer forma, parece-nos manifesto que a preocupação dos grandes filósofos não está exatamente com o morrer, mas com as implicações existenciais do viver perante a realidade da morte como transição final inevitável desta personalidade. Isto fica evidente nas palavras de muitos grandes filósofos. Lucrécio, por exemplo, afirmava não temer a morte, pois onde ela estivesse ele não estaria. Sócrates, no belo diálogo Fédon, também afirmou não temer a morte, pois assim poderia estar entre os deuses e os grandes nomes que já partiram. Portanto, reiteramos que a morte, em si, não é o grande problema, mas as questões que surgem ao pensar nela sim. Por que estou aqui? O que me faz lutar pela vida se no fim tudo acabará? Quem sou eu? Qual o sentido da vida? Para onde estamos rumando? Entre outras muitas questões que surgem com a consciência de nossa morte física.

Grandes questões como estas formam a própria história da filosofia desde os seus primórdios. Respondê-las tornou-se a vida de muitos filósofos e gerou fantásticos sistemas de pensamento que revolucionaram o caminho da humanidade. Ou seria um exagero dizer que a consciência de nossa finitude física tenha impulsionado grande parte dos nossos questionamentos filosóficos? Creio que não. Pode parecer paradoxal, mas a consciência da morte impulsiona a busca de sentido da vida.

REFERÊNCIAS:

DENIS, Leon. Depois da Morte. São Paulo: FEB, 2005.

PLATÃO. Fédon. Tradução: Miguel Ruas.São Paulo: Martin Claret, 2004.

Pensando sobre a Pesquisa Austríaca sobre EQM

Olá amigos O artigo recentemente publicado pelos pesquisadores austríacos no que tange as experiências de quase morte, apesar de uma longa p...